Abril
Abril
Maio

O avanço do retrocesso: mais construção, os mesmos problemas

O título pode parecer contraditório, mas traduz aquilo que muitas pessoas sentem hoje em Rio de Mouro: enquanto se anunciam novos projetos urbanísticos e mais construção, continuam por se resolver problemas antigos que afetam diariamente a vida da população.

O debate em torno da Unidade de Execução de Albarraque Sul, da Unidade de Execução de Albarraque Nascente e da Unidade de Execução do Parque de Ciência e Tecnologia Norte é demasiado importante para ser reduzido a uma discussão técnica ou imobiliária. O que está verdadeiramente em causa é o futuro de Rio de Mouro e a forma como a freguesia vai continuar a crescer nos próximos anos.

Quem vive em Rio de Mouro sabe que o território sofreu, durante décadas, um crescimento urbano muito rápido sem ter em atenção o ordenamento do território e sem que esse crescimento tivesse sido acompanhado pelo necessário investimento público. Hoje, isso sente-se diariamente: trânsito congestionado, dificuldade de estacionamento, transportes públicos insuficientes, pressão sobre escolas e centros de saúde e falta de espaços públicos qualificados.

Naturalmente, o território precisa de habitação. Muitos jovens e famílias têm cada vez mais dificuldade em continuar a viver no concelho devido aos preços praticados no mercado imobiliário. Mas, construir mais não resolve automaticamente o problema, sobretudo quando a nova construção é pensada essencialmente numa lógica de valorização imobiliária e não em função das necessidades reais da população.

Durante muitos anos, zonas como Rio de Mouro e Albarraque foram das poucas alternativas acessíveis para milhares de trabalhadores e famílias da Área Metropolitana de Lisboa. Hoje, até esses territórios começam novamente a ser alvo de forte pressão imobiliária e processos de gentrificação.

Muitas famílias, que antes procuravam estas zonas por serem das poucas onde ainda conseguiam viver, estão agora a ser empurradas também daqui, devido ao aumento dos preços da habitação e da especulação imobiliária.

Portugal continua a ser um país de baixos salários. Segundo os dados da Segurança Social referentes a dezembro de 2025, mais de 2,4 milhões de vínculos contratuais tinham uma remuneração mensal base até 1000 euros brutos, o que corresponde a mais de 54% do total de contratos.

Perante esta realidade, é legítimo perguntar quem terá realmente capacidade para comprar habitação nestes novos empreendimentos.

É precisamente por isso que o centro desta discussão tem de ser a habitação acessível. Porque continuar a aumentar a construção sem garantir acesso real à habitação é continuar a construir a casa pelo telhado.

A própria Unidade de Execução de Albarraque Nascente prevê que as áreas de cedência para equipamentos coletivos possam integrar habitação pública, a custos controlados ou arrendamento acessível. Mas é importante que isso não fique apenas no papel.

Ao mesmo tempo, continuam por resolver problemas antigos da freguesia.

Os projetos de Albarraque Sul e Albarraque Nascente apresentam aspetos positivos, como a criação de zonas verdes e novos espaços públicos. No entanto, o próprio documento admite que a área não é atualmente servida diretamente por transportes públicos adequados e que será necessário adaptar futuramente a rede de autocarros à nova realidade habitacional.

Ou seja, primeiro projeta-se um crescimento urbano significativo e só depois aparece a necessidade de pensar mobilidade e serviços públicos.

A futura Circular Poente ao Cacém, proposta pela CDU há vários anos, vai melhorar acessibilidades e aliviar parte da pressão rodoviária existente. Mas, é legítimo perguntar: o que estará pronto primeiro, esta infraestrutura ou a nova urbanização – o que tornaria a situação actual mais complicada.

Há ainda outras questões essenciais. O reforço da rede escolar, particularmente nas chamadas zonas rurais da freguesia de Rio de Mouro: muitas famílias, continuam a ser obrigadas a colocar os filhos em escolas de concelhos vizinhos por falta de resposta pública adequada na freguesia. A contratação de mais médicos e enfermeiros para as USF da freguesia, de modo a evitar que moradores de Rio de Mouro sejam enviados para o Centro de Saúde de Mem Martins, onde milhares de utentes ainda não têm médico de família.

Rio de Mouro precisa de desenvolvimento, mas precisa sobretudo de equilíbrio.

O território não pode continuar a crescer apenas ao ritmo dos interesses imobiliários. O planeamento urbano tem de servir primeiro quem cá vive todos os dias.

Junta de Freguesia

Contribuir de forma ativa para a qualidade de vida de toda a comunidade.

Balcão digital

Consulte aqui todos os nossos regulamentos e normas de funcionamento.

Aceda aqui