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Tomás Júlio Leal da Câmara

Tomás Júlio Leal da Câmara nasceu em Pangin (Nova Goa), a 30 de Novembro de 1876, filho de Eduardo Inácio da Câmara e de Emília Augusta Leal. O pai, um oficial do Exército descendente de um dos bravos do Mindelo, e a mãe, proveniente de uma das famílias de maior prestígio social residente na Índia Portuguesa, proporcionaram-lhe, até aos seus 19 anos (dos quais, os primeiros 6 passados em Nova Goa e regressando posteriormente a Lisboa em 1882), uma existência algo pacata e normal, se bem que, desde muito cedo, Leal da Câmara manifestasse uma personalidade irreverente.

Em 1895, com a morte do pai (à altura destacado em Timor), o jovem estudante prefere alterar radicalmente o seu estilo de vida, abandonando definitivamente o curso de Agronomia e Veterinária, que entretanto iniciara, e trocando- o pela profissão de jornalista, ocupação bem menos estável, mas muito mais compatível com o seu modo de existir, manifestando desde cedo uma grande autonomia mental e singular independência intelectual e artística, aliadas de ideais humanistas e republicanos.

O incisivo poder crítico da sua personalidade, por excelência manifesto no campo humorístico do desenho caricatural, leva-o, então, por mérito próprio, a atingir, desde logo, uma verdadeira notabilidade no meio intelectual português. Tal reconhecimento artístico, porém, não foi suficiente para impedir um exílio forçado, como fuga ao mandato de captura e ao inerente degredo, motivados pelas suas sarcásticas críticas em desenhos publicados, onde ridicularizava as mais destacadas e omnipresentes figuras públicas e políticas do Portugal de então.

O republicano convicto, o caricaturista subtil, o artista rebelde, atravessa a fronteira e parte para Madrid em 1898, iniciando assim uma longa ausência do país, fixando- se em Espanha durante três anos. Todavia, a morada ideal dos poetas ficava um pouco mais a norte, em Paris, à época verdadeira capital da Europa, senão mesmo de todo o mundo culto, que provocava desejo e anulava qualquer hesitação. Aqui chegará, a par do século, tentando conquistar o seu espaço na metrópole das artes e letras, e de uma estada pensada para uns tantos meses, talvez enquanto durasse a Exposição Universal, a permanência em Paris prolongou-se por anos de corrida contra o desencanto das tristezas esquecidas aquando das vitórias do reconhecimento.

A implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, fá-lo-á regressar a Portugal, ao passo que a manifesta indiferença cultural das elites portuguesas, porém, aliada, por sua vez, à ignorância geral das populações e a par da fraca diferença entre regime deposto e nova situação, desapontam-no cruelmente, levando-o, desta feita, a auto-exilar-se em 1913 e a procurar de novo a sociedade parisiense, entre a qual permanecerá até finais de 1915.

O eclodir da Primeira Grande Guerra, com as suas nefastas ocorrências de quotidiano bélico e de tempos de instabilidade, provocaram no artista o serenar da sua paixão pela sua capital adoptiva, fazendo-o regressar a Portugal, integrando círculos modernistas e humoristas. Agora, sem os sonhos e as saudades criadas durante o exílio forçado, fixa-se em Leça da Palmeira e envereda pela docência eiT,l 1919, regendo as disciplinas, primeiro de Desenho Industrial na Escola Infante D. Henrique, depois, de Desenho Ornamental na Escola Industrial de Faria Guimarães.

Em 1920, opta finalmente por Lisboa, pede transferência para a Escola Industrial de Fonseca Benevides e casase com Júlia de Azevedo, colaboradora pessoal de Ana de Castro Osório. Três anos depois, decide abandonar a frenética e oca sociedade citadina, isolando-se no campo, entre uma genuína população rural, viva nos seus ancestrais conceitos de honradez e autenticidade. Adquire, assim, um casal antigo de feição popular na Rinchoa, junto a Rio de Mouro, onde passará a residir a partir do início da década de 1930.

Em 1944, é agraciado com o Título de Membro Honorário da Academia Espanhola de Belas Artes e homenagem semelhante ser-lhe-á feita pela instituição congénere portuguesa três anos depois, ao mesmo tempo que tentava perpetuar-lhe a memória com uma exposição retrospectiva da sua obra.

Todavia, a Rinchoa não significará o encerramento total da fronteira com o mundo exterior, pois Leal da Câmara transforma a sua casa num Atelier-Museu (inaugurado a 16 de Setembro de 1945), como que querendo oferecer a todos a possibilidade de descobrirem e pensarem o mundo por ele visto e registado, jubilando-se ainda do ensino em 1946, à parte uma longa actividade artística como pintor, cartazista, desenhador, caricaturista, gráfico, conferencista, jornalista, promotor cultural, urbanista e professor.

Tomás Júlio Leal da Câmara morre na sua residência da Rinchoa, em 21 de Julho de 1948, sendo sepultado no cemitério de Belas, deixando-nos uma imagem de um homem que assumiu em vida as atitudes pronunciadas no papel, sendo um inconformista por natureza, um republicano por convicção, mas, acima de tudo, "um caracterizador de costumes", um observador apaixonado do humano.

 

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